O Racismo, lá e aqui
 
 

A grande celeuma a respeito do projeto de cotas para estudantes negros nas universidades traz à baila, mais uma vez, o tema do racismo no Brasil, e suscita inevitáveis comparações com os EUA, o local, aliás, onde surgiu pela primeira vez esta idéia de cotas. Se copiamos a solução deles, isto significa que o problema deles é igual ao nosso? Ou será que, junto com a solução, estaremos importando também o problema? Em outras palavras, este sistema pode atrair contra os estudantes negros o despeito de seus colegas brancos, e então ninguém mais duvidará de que o racismo americano é igual ao brasileiro.

Em nenhum ponto o Brasil é mais distinto dos EUA, do que nas questões referentes a raças. A começar pela própria definição das raças. Nos EUA, a divisão entre brancos e pretos é nitidamente delineada, sendo os mestiços classificados entre os pretos (e há relativamente poucos mestiços). A diferença entre os níveis de renda de cada raça é flagrante. Desta forma, há uma relação evidente entre a cor da pele e a carência econômica que justifica o recebimento do benefício. Esta mesma relação, no Brasil, é muito mais fluida e questionável. Aqui as raças estão misturadas, há poucos brancos e pretos puros, e uma multidão de mestiços. Há poucos pretos ricos, mas em contrapartida, há muitos brancos pobres. Se a lei das cotas fizer sucesso, o que se verá a longo prazo é uma multidão de estudantes invocando algum remoto ancestral e declarando-se "pretos" na hora da prova. O benefício, neste caso, se extinguirá, pois o que é privilégio de todos, na verdade não é privilégio algum.

Aproveitando o gancho, disponho-me a fazer uma breve análise histórica e sociológica para explicar o porquê da evolução divergente do racismo nos EUA e no Brasil, países que tem em comum o passado escravocrata. Este é um tema sobre o qual muito já se falou e pouco se explicou. Mas acredito que a pista se encontra na observação, poucas vezes enfatizada, de que nos EUA, antigamente, existiam dois tipos distintos de racismo: o racismo dos ricos e o racismo das classes trabalhadoras.

O primeiro deles pode ser encontrado nos textos de refinados intelectuais e nos discursos dos políticos aristocratas. A discussão é mais subjetiva, especulava-se se os africanos pertenciam de fato à espécie humana, se a capacidade de aprendizado destes seria igual à do homem branco, ou se eles, na verdade, seriam um estágio de humanidade intermediário entre o homem caucasiano e o macaco. Volta e meia teciam projetos tresloucados de mandar todos os negros de volta para a África, ou de dar-lhes terras ali mesmo no continente americano, bem longe das áreas povoadas pelos brancos. De modo geral, estes homens não gostavam dos negros e desejavam que eles não estivessem ali, mas também não tinham propósitos hostis contra estes. Um bom exemplo desta corrente de pensamento foi dado por Benjamin Franklin:

"...e visto que, por assim dizer, estamos limpando nosso planeta, livrando de florestas a América e, com isso, fazendo com que esse lado do globo reflita uma luz mais brilhante para quem o contempla de Marte ou Vênus, por que deveríamos... escurecer seu povo? Por que incrementar o número dos Filhos da África transportando-os para a América, onde nos é oferecida uma oportunidade tão boa de excluir todos os negros e escuros, e de favorecer a multiplicação dos formosos brancos e vermelhos?"

Note bem: o motivo da aversão de Benjamin Franklin pelos africanos era... estética! Ele achava que a cor deles não ia combinar com a paisagem que desejava expor aos marcianos e venusianos... Mas Benjamin Franklin era um intelectual sofisticado, e podia permitir-se estes devaneios. Os ricos podem ter esta atitude blasé porque eles circulam por ambientes como suas propriedades, condomínios, clubes elegantes, hotéis de luxo, salas VIP, lugares de onde os negros estão excluídos a priori, não por serem negros, mas por serem pobres. Eles podem não gostar de pretos, mas raramente cruzam com eles; e depois, como eles com freqüência são empregadores, a existência dos negros lhes é conveniente como reserva de mão-de-obra barata. A condição social do negro é que define o seu papel e segrega-o do branco rico, como este deseja, sem que haja necessidade de uma legislação discriminatória ou de atos de violência.

Bem diferente é o caso do branco de classe trabalhadora que tem que conviver ombro a ombro com os ex-escravos. Este fenômeno foi sentido nos EUA com bastante intensidade no quarto final do século XIX: antes o racismo era restrito ao sul recalcado e vingativo, mas à medida em que levas e mais levas de escravos libertos migravam para o norte em busca de emprego, acirrava-se a hostilidade contra eles. Para um trabalhador branco, a presença de um preto nas vizinhanças não era um incômodo subjetivo ou mera questão de antipatia, mas uma ameaça direta a seu padrão de vida. Os negros aceitavam salários muito baixos, e nos bairros onde eles se instalavam, o preço dos imóveis despencava. Desta forma, à medida em que o trabalhador americano se organizava em sindicatos e partia para a luta organizada contra os patrões, ele também lutava contra os negros e outras minorias. Na cultura americana, o combate do cidadão comum contra o poderoso - o monarca cobrador de impostos, o patrão ganancioso - é visto como glorioso, mas o combate contra o fraco - o negro, o imigrante pobre - é uma coisa feia, ou se preferirem, politicamente incorreta. Mas do ponto de vista do trabalhador americano, ambos os combates tinham um só objetivo pragmático: melhorar de vida. O racismo das classes trabalhadoras caracterizou-se, desde o princípio, pela violência sistemática e pela segregação forçada, que foi tomando forma de lei à medida em que o racismo contaminava a classe média que constituía a base do eleitorado.

É possível apontar, na História do Brasil, alguma ocorrência análoga?

Não, não é possível. Para examinar o porquê dessa ausência de similaridade, podemos examinar três momentos distintos: o último quarto do século XIX, a primeira metade do século XX, e a segunda metade do século XX até a época atual.

No final do século XIX, época em que a escravidão foi abolida, os EUA estavam em plena revolução industrial. O proletariado ia rapidamente se constituindo de operários, que em geral passavam longas horas diárias nas fábricas, e residiam em bairros-dormitórios com outros operários. Desta forma, forjou-se entre eles uma associação fechada e hostil a intrusos, como os escravos libertos que competiam por seus empregos. Na mesma época, no Brasil, não havia revolução industrial, nem classe trabalhadora numerosa, e os negros, mesmo libertos, continuavam no campo. Os poucos que iam para as cidades (como os ex-combatentes da Guerra do Paraguai) não encontravam ocupação e terminavam nas favelas, cujos primeiros exemplares datam desta época.

No início do século XX, acelerou-se a industrialização no Brasil, ainda que concentrada quase que exclusivamente no estado de São Paulo. O proletariado nacional constituiu-se, principalmente, de imigrantes europeus. Um censo levado a cabo em 1928 revelava que 70% dos trabalhadores da construção civil e 90% dos operários eram estrangeiros, italianos em sua maioria. Eram esses imigrantes que formavam a reserva de mão-de-obra disponível, uma vez que, por esta época, a grande maioria dos negros ainda se encontrava no campo (assim como mais de 3/4 da população, de modo geral). Neste ponto, há flagrante analogia com a situação nos EUA. Lá como aqui, os operários eram em geral imigrantes, e viviam em bairros divididos por nacionalidades. Eram comunidades muito unidas e fechadas sobre si mesmas. A escritora Zélia Gattai (in Anarquistas Graças a Deus) fala da sua infância em São Paulo, e conta como tinha que tomar cuidado ao passar por certos quarteirões do Brás onde sua mãe lhe havia proibido ir, por serem habitados por italianos do sul (a família de Zélia era do norte). Ela ressalta que, naquele território, eram eles quem mandavam, e até os policiais da força pública que circulavam por ali tinham que ser previamente aprovados pela comunidade. Entretanto, se por um lado houve um longo histórico de greves, anarquismo e conflitos trabalhistas entre essas comunidades e o poder público, por outro lado encontram-se ausentes os conflitos entre comunidades de diferentes grupos étnicos, que foram tão comuns nos EUA. Por que esta diferença, se de resto a forma como estas comunidades se organizavam era tão semelhante?

Certamente que apenas os ares do hemisfério sul não mudam o caráter de ninguém, nem tornam as pessoas mais tolerantes. Este tipo de conflito inter-étnico não surgiu aqui simplesmente porque não houve uma situação que os detonasse. A grande maioria dos operários era italiana, e os demais eram oriundos de outros países do sul da Europa. Essa massa era culturalmente afim e tinham todos uma pretensão salarial semelhante, enquanto que os contingentes de imigrantes dos EUA eram muito mais diversificados. Seria ingenuidade, entretanto, supor que os "anarquistas" do Brás iriam manter sua postura fraternal se, de um momento para o outro, surgissem por ali incontáveis levas de intrusos, aceitando salários ainda mais baixos que os deles, e ainda com o agravante de serem fisicamente diferentes, de pele negra, impossíveis de serem confundidos com membros da comunidade. Isto, porém, jamais ocorreu.

Na segunda metade do século XX, acelera-se a migração do campo para a cidade, ao mesmo tempo em que cessa a imigração estrangeira. O novo operariado nacional é heterogêneo em termos étnicos. Constitue-se, sobretudo, de migrantes vindos do interior, especialmente do nordeste (Lula é o representante mais emblemático desta classe). Os descendentes dos antigos operários imigrantes agora são membros da classe média, e nos antigos bairros de imigrantes agora predominam restaurantes e mercearias. Mas desta vez, as vagas nas fábricas já não são suficientes para todos. O modelo industrial, que desde o século XIX faz seu papel de elevador social, transformando primeiro camponeses em operários, e depois operários em classe média, claramente atingiu o seu limite. De fato, com as novas tecnologias de automação, a tendência mundial é de diminuição do total de empregados do setor industrial, ao mesmo tempo em que aumenta o setor de serviços. Na época atual, nenhuma fábrica mais admite operários sem um mínimo de instrução formal. No início do século isto era possível, primeiramente porque a natureza do trabalho então executado era menos complexa do que hoje, e segundo porque, de qualquer forma, não havia escolha, já que a grande maioria dos trabalhadores era semi-analfabeta. Mas hoje em dia isso é impensável. A geração que veio junto com Lula trabalhar no grande ABC, sem dúvida era oriunda das camadas pobres, mas não do extrato mais baixo da sociedade. Os integrantes deste extrato, no qual se inclui a grande maioria dos negros, nunca entrou na economia formal, e em geral veio do campo para habitar as favelas e viver de expedientes avulsos. Nota-se que há, até, relativamente poucos negros na classe trabalhadora, onde predomina o típico nortista conhecido como o "paraíba".

Assim, época por época, uma série de circunstâncias fez com que os negros e a classe trabalhadora jamais entrassem em rota de colisão. De fato, estas entidades sempre levaram existências paralelas: nem o negro, estritamente, entrou para a classe trabalhadora organizada e formal, nem essa classe trabalhadora jamais viu o negro como fator de redução de seu padrão de vida. Assim, históricamente, o racismo de que os negros brasileiros vem sendo vítimas é o racismo subjetivo dos ricos, baseado em desprezo e indiferença, e não o racismo objetivo da classe trabalhadora, baseado em hostilidade, violência e leis de segregação. Pode-se traçar, também, um paralelo com a África do Sul. Poucos sabem, mas o apartheid nem sempre existiu, e de fato surgiu em época relativamente recente, em meados deste século. Antes disso, os negros teóricamente tinham direitos iguais. A razão da emergência do sistema de apartheid (literalmente, "desenvolvimento em separado") está ligada às mudanças sócio-econômicas na África do Sul: inicialmente os colonos afrikaners, de origem holandesa, formavam uma comunidade rural e atrasada de fazendeiros escravocratas, onde os negros tinham um lugar bem definido. O quadro social, portanto, era análogo ao do Brasil na mesma época, e análogo também era o tipo de racismo. Mas com a modernização do país, que foi adquirindo um perfil europeu, os negros perderam o seu papel tradicional e viram-se transformados em um enorme contingente de mão-de-obra excedente, que tinha que ser de alguma maneira apartada do mercado de trabalho e dos bairros residenciais, para preservar o padrão de vida dos trabalhadores brancos. O quadro social, portanto, era análogo ao dos EUA pós-guerra civil, e análogo também era o novo tipo de racismo.

Espero ter dado uma explicação satisfatória para as diferenças entre o racismo no Brasil e nos EUA, e demonstrado como não há, em absoluto, similitude entre eles. Não espero, contudo, ouvir muitas palavras de apoio à minha tese, já que estou ciente de haver dito coisas que a maioria das pessoas não gosta de ouvir, como colocar a classe trabalhadora no papel de vilã tradicionalmente reservado à classe rica, bem como haver lembrado de que o racismo pode não ser filho do arcaísmo, mas da modernidade.

 

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