Neuroses Brasileiras  
  Todo povo tem suas idiossincrasias, as quais eu prefiro chamar de neuroses. Elas compõem uma tipificação que, aos poucos, é apropriada pela caricatura e, bem ou mal, vai formando a imagem pela qual o dito povo é identificado mundo afora. Por isto mesmo, esta tipificação só pode ser bem percebida de fora para dentro - é difícil, mesmo, ter consciência da existência destas neuroses, quando se permanece imerso no mundinho onde elas vicejam. Para bem vê-las, é necessário se deslocar em direção ao mundo exterior, se não geograficamente, ao menos intelectualmente.

O povo brasileiro é particularmente rico em neuroses que nos acompanham há várias gerações. Refiro-me aos brasileiros minimamente educados, pois conforme é sabido, pobre não é neurótico, pobre é louco. Com um pouco de paciência, é possível enumera-las.

(1) O MISERABILISMO

Esta é bem complexa. O miserabilismo é, por assim dizer, um culto à miséria. Manifesta-se mediante uma abordagem patética e eventualmente dúbia que os brasileiros de certo nível intelectual mantém a respeito da miséria e dos pobres em geral. A miséria (alheia) incomoda-os, e provoca-lhes sentimentos contraditórios. Por vezes a miséria é alardeada e exagerada (como fez Lula, afirmando que no Brasil existem 50 milhões de subnutridos, enquanto as estatísticas do IBGE encontravam apenas 5 milhões), outras vezes a miséria é apresentada como um traço cultural muito nosso, e mesmo uma virtude: o "povo oprimido" seria bondoso, pacífico e solidário, enquanto todos os males seriam pertinentes à elite maléfica, cujos integrantes são sempre os outros. Outras vezes, o mal é atribuído ao dominador estrangeiro, o colonizador de eras pretéritas ou a potência hegemônica do presente. Ora a miséria é um sinal de degradação, ora é o emblema de um patamar moral superior. Ora a miséria é uma nódoa a ser removida, ora ela é um traço indelével de nossa identidade, crença que alimentamos ao organizar tours para turistas em favelas. Na época do Cinema Novo, chegou-se até mesmo a falar de uma "estética da miséria".

A única coisa que me parece certa é que por trás de toda esta confusão mental existe um poderoso sentimento de culpa, eventualmente projetado sobre um "outro": a elite maligna ou o dominador estrangeiro, que seriam os culpados pela miséria. Mas sua origem mais remota, a meu ver, cabe à Igreja Católica, que conclama à solidariedade com os pobres ao mesmo tempo em que santifica a pobreza e condena a busca por bens materiais. Posteriormente, teses políticas e econômicas de orientação marxista, muito populares entre os intelectuais universitários, vieram dar respaldo ao nosso miserabilismo. A única voz dissonante partiu, não de um sociólogo, mas do carnavalesco Joãozinho Trinta, com aquela citação lapidar: "quem gosta de miséria é intelectual, o povo quer é luxo".

(2) COMPLEXOS DE SUPERIORIDADE E INFERIORIDADE

Uma característica bem singular dos brasileiros é sofrer, simultaneamente, de um complexo de superioridade e de inferioridade. A sensação de superioridade é evocada pela vastidão de nosso território e de nossos recursos naturais, e é bem familiar àqueles que freqüentaram a escola em determinados períodos de nossa história, como o Estado Novo de Vargas ou a época de Médici e o Milagre Brasileiro. A sensação de inferioridade deriva, justamente, da frustração por não estar ao alcance daquilo que acreditamos ser nosso potencial. O primeiro diz: "o Brasil é o país do futuro", e o segundo completa: "e sempre será". Trata-se de um tenaz equívoco. A vastidão de território e de recursos minerais só foram importantes no mundo pré-revolução industrial; hoje em dia, muito pelo contrário, são um empecilho, e os países mais ricos e dinâmicos, como o Japão, a Suíça, Cingapura, Coréia do Sul, são países pequenos cujo solo nada produz. O que conta não é possuir recursos, mas ter o dinheiro para compra-los. A persistência deste equívoco entre nós conduz à crença fantasiosa de que nossas riquezas seriam pré-existentes - minérios, petróleo, terras férteis - e que portanto, nossa riqueza não precisa ser criada; ela já existe, basta distribui-la. O brasileiro alia a pretensão de já ser rico com uma total falta de confiança em seu potencial.

(3) VERGONHA DE CLASSE MÉDIA

Uma neurose bem conhecida dos norte-americanos é a arrogância por vezes manifestada por cidadãos comuns e mesmo por caipirões, o popular "redneck", indivíduos prosaicos e até medíocres, que em nada se destacam dos demais, mas que não obstante são extremamente altivos, ciosos de seus direitos e de seus parcos bens pessoais. No Brasil, nós temos a neurose oposta. O cidadão comum de classe média não tem orgulho nenhum de ser o que é. Isto fica patente nas representações simbólicas que emitimos via literatura, e mesmo via novelas de TV. Raramente é apresentado o universo comum da classe média; os romances, sobretudo os de extração regionalista, têm forte cunho "social", o que significa dizer que os personagens serão ou ricos ou pobres, e as tensões sociais serão parte da trama. Nas novelas da Globo, o padrão é bem conhecido: os personagens se dividem entre um núcleo rico e glamuroso, e um núcleo "pobre" onde, não obstante, todos tem roupas de boutique, dentes na boca e falam direito.

A maioria dos indivíduos de classe média gostaria de ser rico, mas também há os que se sentem culpados por disporem de um parco bem-estar em um país onde a maioria da população é pobre. É este o motivo porque o PT, desde suas origens, fez mais sucesso entre a pequena classe média urbana do que nos rincões miseráveis. A falta de altivez de nossa classe média deriva, sem dúvida, de uma sensação de impotência - ela é minoritária, não tem representação política (praticamente não há políticos que representem os interesses da classe média) e seu papel se reduz a pagar impostos e empurrar com a barriga.

(4) A BUSCA PELAS RAÍZES

Uma sensação que, no Brasil, periodicamente acomete a literatos, artistas e mesmo cidadãos comuns, é a sensação de que ainda somos um país "colonizado" que repete fórmulas estrangeiras, e que precisamos urgentemente resgatar "nossas raízes", e só a partir daí poderemos ter uma produção cultural e artística "genuína" e uma verdadeira identidade nacional. Em determinados momentos, esta tendência transformou-se em movimento organizado, como na época da Semana de Arte Moderna de 1922, ou no início dos anos sessenta, na época das atividades do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE. No entanto, qualquer estudo honesto da história e da cultura brasileira só pode concluir que nós não temos nenhuma cultura autóctone a resgatar, exceto talvez o canibalismo dos tupinambás. As raízes de nossa cultura estão na Europa. Bem se sabe que boa parte de nossa população não tem origem européia, e que suas contribuições para a formação da cultura nacional estão presentes e bem visíveis entre nós. Mas francamente, colocar estes elementos em pé de igualdade com o elemento europeu é usar dois pesos e duas medidas. Historicamente, a cultura do vencedor, escrita em livros e ensinada nas escolas, é a cultura predominante. A cultura do vencido, do dominado, é descaracterizada e sobrevive na forma de fragmentos. Fazer o todo igual ao detalhe é falsear a realidade.

Penso que este esforço em valorizar "o que é nosso" vem de uma consciência pesada pela opressão que foi exercida em épocas passadas contra índios e africanos. Sentimos remorsos por havê-los proibido de praticar sua cultura nativa, e queremos compensar isto na época atual, supervalorizando os vestígios desta cultura que chegaram até os dias de hoje. O que não pensamos é que as representações que fazemos destas culturas não-européias são visualizadas a partir de um prisma europeu, o único de que dispomos, posto que européia é a nossa efetiva raiz. Assim, o que produzimos são caricaturas, como as mulatas seminuas, exportadas como genuína expressão da brasilidade, quando na realidade são representações da imagem que um europeu tem do que seria um "ser tropical". Outra caricatura foi Macunaíma, o herói sem caráter, apresentado como um personagem-síntese do homem brasileiro, mas que nada mais é que uma representação de como um europeu vê um índio - preguiçoso, sensual, sem princípios, regido por instintos e não por costumes. Mário de Andrade, criador de Macunaíma, sintomaticamente foi figura das mais proeminentes da Semana de Arte Moderna. Ele e outros de sua geração acusavam a cultura brasileira de academicismo e servidão a modelos europeus, esquecidos de que eram, igualmente, de origem européia as novas formas de arte e literatura que propugnavam.

(5) A REJEIÇÃO À HERANÇA LUSITANA

Qualquer um que já freqüentou aulas de História ou Geografia já deve ter se deparado com aquele professor que atribuía todos os nossos problemas atuais ao fato do Brasil haver sido colonizado por Portugal. Não apenas os acadêmicos, mas também as pessoas comuns têm um indisfarçável prazer em vilipendiar nosso ancestral lusitano - a revolta contra o pai é, de fato, uma neurose muito comum. Alguma coisa em nosso passado português nos envergonha. Ao fazer balanços de nossa história e cultura, procuramos sempre minimizar a contribuição portuguesa e maximizar a contribuição dada por povoadores vindos de outras paragens. Isto transparece até nas novelas da Globo, onde os imigrantes italianos são apresentados como indivíduos valorosos, e os imigrantes portugueses quase não aparecem.

São hoje bem conhecidos os maus efeitos da colonização ibérica, sua insistência em um modelo econômico mercantilista sem transição para o capitalismo moderno, a restrição ao livre comércio, a persistência da monocultura e dos latifúndios, o uso de escravos em larga escala, a violência contra os indígenas, o obscurantismo religioso. Entretanto, os brasileiros são todos ou quase todos descendentes, herdeiros e usufrutuários deste mundo criado pelos colonos, com tudo o que ele tem de bom e de mau. E como tal, carecemos de autoridade moral para criticar os portugueses - no fundo, estamos vilipendiando a nós mesmos. Esta autoridade moral, no presente, só assiste a uns poucos milhares de indivíduos, descendentes de tribos de índios isoladas e de quilombolas, os quais podem afirmar, sem mentir, que não possuem nenhuma herança lusitana. Só que estas pessoas não falam mal dos portugueses, uma vez que estão preocupadas com quem as ameaça no presente, e não com quem as oprimiu séculos atrás...

Os discursos repetem: há quinhentos anos que... desde quinhentos anos... pela primeira vez em quinhentos anos... blá-blá-blá. Os autores destes pronunciamentos dão a impressão de acreditar que, há quinhentos atrás, o Brasil já existia, até que chegou o invasor português, fez um estrago danado, e agora que nos livramos dele constatamos que todos os nossos males provém deste período em que estivemos sob seu domínio. Mas há um flagrante paradoxo nesta premissa. O Brasil não pode ter sido invadido pelos portugueses quinhentos anos atrás, simplesmente porque quinhentos anos atrás, o Brasil não existia - passou a existir desde então. Diferente é o caso de indianos de Goa e de chineses de Macau - é compreensível que estes povos encarem os portugueses como invasores, uma vez que a Índia e a China já existiam muito antes de os portugueses aportarem lá. Mas quinhentos anos atrás, não havia Brasil nenhum - havia a região geográfica, que era habitada por várias tribos cujos territórios tribais não correspondiam ao desenho do atual mapa do Brasil, que não estavam unidas por nenhuma federação ou qualquer vínculo político, e que não se viam como membros de um mesmo povo.

A rejeição à herança portuguesa é, como outras de nossas neuroses, oriunda de um sentimento de culpa pela opressão exercida por nossos ancestrais contra os povos nativos. Mas é uma postura basicamente hipócrita, pois consiste de repassar esta culpa a um "outro" chamado português, de quem fingimos não ter vínculo nenhum.

(6) A APOLOGIA DA MALANDRAGEM

Não há dia em que não tenhamos um ou dois motivos para amaldiçoar os políticos por sua corrupção, fato que, por si só, já é suficiente para nos deixar neurastênicos. Mas a terra da "bandalheira" também é a terra do "jeitinho". E se a bandalheira, a corrupção dos políticos e dos empresários, é obviamente condenável, o mesmo não se dá com o jeitinho - a corrupção do pobre. O jeitinho tem sido apontado como um recurso justificável, louvável até, um modo criativo de contornar dificuldades. A figura popular do "malandro" da época do mil-réis, até hoje é vista com simpatia em nosso imaginário. E é claro, temos o já citado Macunaíma, o herói sem caráter, apresentado como sendo o brasileiro arquetípico, mas o que pensamos ser nossa imagem no espelho na verdade é uma projeção: trata-se da imagem tradicional feita pelo europeu para o índio do Novo Mundo, que introjetamos.

Esta aplicação ostensiva de dois pesos e duas medidas é, obviamente, uma distorção e uma hipocrisia, para não dizer uma inversão de valores. A origem disto tudo parece-me, mais uma vez, uma rejeição ao nosso ancestral-colonizador, do qual repudiamos tudo, até a moralidade. As transgressões cometidas pelo povinho em seu dia-a-dia são interpretadas, sob esta ótica, como uma saudável rebeldia contra as normas estabelecidas... Alguns exaltados chegam a afirmar que o Brasil é o país mais corrupto do mundo. Duvido muito que seja. Mas há um traço que, até onde eu sei, é exclusivo nosso: os brasileiros são o único povo do mundo que faz a apologia da corrupção.

(7) A AVERSÃO AOS NEGÓCIOS

As estatísticas não cessam de afirmar: o Brasil é um dos países do mundo onde o clima para negócios é mais hostil. Aqui, leva-se 150 dias em média para abrir uma empresa, 11 anos para fecha-la, a dificuldade em se fazer cobrar uma dívida é máxima, assim como para fazer valer os termos de um simples contrato. Até obter um empréstimo imobiliário é uma via crucis. Entretanto, ninguém se queixa quanto a isso. Nunca vi ninguém fazendo passeata ou berrando palavras-de-ordem contra a burocracia. A população vê isto como normal; é o sinal de que o Estado está trabalhando, está cumprindo o seu papel de coibir a iniciativa privada, vista como daninha. Até as sondagens continuam a apontar como sonho máximo pequeno-burguês obter uma cargo na prefeitura, ao invés de abrir um pequeno negócio.

Desta cultura anti-negócio eventualmente emerge uma cultura anti-capitalista, uma crença de que cumpre ao Estado, e não às empresas e cidadãos privados, o papel de gerir as riquezas do país. Os políticos agradecem, e tratam de gerir muito bem as riquezas do país, aliás em proveito próprio... O irônico disto tudo é que, apesar de o brasileiro ser tão contra o empreendorismo privado, com freqüência é tangido a tornar-se um empreendedor. Refiro-me aos "empresários da miséria", camelôs e autônomos que, expulsos do mercado de trabalho formal, têm que fazer alguma coisa para ganhar a vida. A origem mais remota desta mentalidade parece ser devida à herança católica e sua aversão ao lucro, à usura e ao comércio - era assim no século XIV e continua sendo assim entre os padres da Igreja "militante", tão preocupada com os "problemas sociais", e eu diria mesmo que gosta tanto dos pobres, que contribui para produzi-los em larga escala. O resultado disto tudo é que odiamos o capitalismo, sem nunca termos sido um país efetivamente capitalista.

 

 

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