O tal do imperialismo americano

 
 

Desde minha infância e passando por minha juventude, não tenho ouvido expressão mais constante, mais perene, sempre rejuvenescida a cada vez que é repetida: o imperialismo norte-americano. Que ninguém ouse duvidar de sua existência. Afinal, não está aí a guerra contra o Iraque que todos estão vendo? Mas como bem observou Tácito, nas guerras, os olhos são os primeiros a serem vencidos. Quanto a mim, nada posso fazer para impedir que uma guerra ocorra, mas posso ao menos tentar impedir que meus olhos sejam vencidos, e proponho-me a enxergar: afinal, o que é e tem sido o pretenso imperialismo norte-americano?

Tomando o sentido da palavra "imperialismo", tanto o sentido concreto - domínios territoriais e protetorados - quanto o sentido abstrato - ingerência nos assuntos internos de outros países - e examinando a História desde a emergência dos EUA como potência, podemos tirar duas conclusões.

Primeiro, que o imperialismo americano existe, sim. Os EUA já tiveram duas colônias (Cuba e Filipinas) a até hoje mantém Porto Rico. Conta-se também numerosas intervenções menores, sobretudo na América Central.

Segundo, que o imperialismo americano é pífio. Não pode ser nem remotamente comparado ao imperialismo europeu do século XIX, que dominou boa parte do globo, foi longevo e eventualmente brutal. Tampouco pode ser comparado ao imperialismo nipônico no leste da Ásia durante a primeira metade do século XX, que foi menos duradouro que o europeu, mas especialmente brutal. As intervenções americanas em seu "quintal" foram numerosas, mas também tão breves que apenas um historiador ou jornalista experiente seria capaz de citar todas de cabeça. De fato, há até um site na internet que enumera estas intervenções. Dei uma olhada, e a maioria delas eu nem tinha conhecimento. Mas também cumpre reconhecer que em diversas ocasiões os americanos foram espoliados e tiveram suas propriedades encampadas. E nem todos os que sofreram intervenção ficaram ressentidos, haja visto o caso dos porto-riquenhos, que nem pensam em se tornar independentes e perder a cidadania americana. E o canal do Panamá foi, afinal, restituído.

O fato é que, na imaginação de nossos políticos e intelectuais, os americanos surgiram como os grandes bodes expiatórios de nossas deficiências, substituindo neste papel a Portugal, a quem costumávamos culpar por nossos males de origem (mesmo aqueles surgidos após a independência). A América Latina não é subdesenvolvida, mas sobreexplorada. Nós somos ricos, eles é que levam a nossa riqueza. Nós somos interessantes e criativos, eles é que impõem pela força seus padrões culturais. Como diz o ditado, engana que eu gosto... Tudo o que ocorre, a explicação é simples: nossas elites são manobradas pelo imperialismo anglo-saxônico. A Guerra do Paraguai teria sido, na verdade, uma guerra da Inglaterra contra uma emergente potência sul-americana, na qual Brasil a Argentina foram meros fantoches. A revolução de 64 foi provocada pela VIIa Frota Americana, que deu ordens aos nossos generais. Acreditar nisso é conveniente, porque magicamente transfere a outros a culpa por tudo de mal que nós fizemos. Mas cultivar uma auto-imagem de fantoche e marionete, evidentemente nos leva a questionar se aquele que não tem dignidade pode sentir indignação...

Já relativizando um pouco o sentido da palavra "imperialismo", podemos dizer que os EUA o exercem sob duas modalidades: o econômico e o cultural. O imperialismo econômico procura induzir o mercado a comprar produtos americanos, mas nem sempre é bem sucedido, já que outros países os fazem melhores e mais baratos. No imperialismo cultural, contudo, eles são mais bem sucedidos. O modo de vida, os modismos, os valores americanos encontram-se amplamente disseminados por todo o mundo, inclusive pelo Brasil. Como isto é possível?

Em primeiro lugar, porque a imagem que é passada da vida americana é vistosa. Isso ocorre porque o seu principal veículo de disseminação é a indústria do entretenimento, especialmente o cinema. As produções norte-americanas refletem a boa auto-imagem que os americanos tem, e que é exportada nessa embalagem atraente. Mas seria injusto deixar de reconhecer que os desejos e aspirações do resto do mundo tem muito a ver com os desejos e aspirações do americano médio. Isto de modo algum é contraditório: não foram os EUA, afinal, constituídos por imigrantes vindos de todo o mundo?

O lado irônico disso tudo é: se, no imperialismo econômico, que foi intencional e planejado, os americanos não lograram tanto sucesso assim, foram conquistar pleno sucesso justamente naquilo que não foi intencional nem planejado: o "imperialismo" cultural. De fato, a cultura americana originalmente era um produto de consumo interno. Ela foi exportada no rastro do sucesso econômico americano, que permitiu bem-cuidadas produções hollywoodianas, boa música, heróis de revista em quadrinho, computadores pessoais, a internet. Sem contar que o sucesso econômico é por si só uma propaganda. Se os americanos em numerosas ocasiões usaram da força para impor seus interesses econômicos, por outro lado eles jamais procuraram impor pela força seus valores culturais. Na verdade, salvo em raras ocasiões (como aqui na época da Política da Boa Vizinhança) não houve sequer um esforço politicamente motivado em fazer propaganda destes valores. Eles foram aceitos espontâneamente pelas populações, às vezes solapando arcaicas tradições morais e religiosas, para a fúria dos fundamentalistas. No Brasil, isto mal é sentido, pois somos parte do mundo ocidental, mas no oriente, as idéias americanas de democracia, liberdade de credo, emancipação feminina, entretenimento e consumo de massa são revolucionárias e produzem uma forte reação por parte dos tradicionalistas. Na verdade, estes valores "americanos" são de fato valores ocidentais genéricos, mas são taxados de americanos porque quase sempre chegam naquelas paragens em uma embalagem made in USA.

Se o intervencionismo americano em seus vizinhos gerou reações como seqüestro de embaixadores e militares, o imperialismo cultural - não planejado - gerou uma reação milhares de vezes pior, com os atentados do 11 de setembro. Os idiotas que julgam que esses atentados foram protestos contra a exploração econômica do Terceiro Mundo não tem a menor idéia do que se passa na mente de um fanático religioso.

De todos os países que, em alguma etapa de sua história, sentiram de alguma forma o imperialismo norte-americano, não houve nenhum que o sentiu com mais intensidade do que o Japão. Eis a História: o insular Japão logrou manter-se isolado do ocidente durante as Grandes Navegações, mas em 1853 os navios do comodoro Perry surgem na baía de Tóquio. Exigem o livre trânsito de mercadorias, e o Japão não tem como enfrenta-los. Que golpe! Inundado de manufaturas ocidentais, e sem poder taxa-las, o Japão não terá como desenvolver sua indústria. Cinqüenta anos depois, os japoneses tentam um tímido imperialismo no leste da Ásia, no sentido de garantir acesso às matérias-primas de que eram desesperadamente carentes. As potências imperialistas ocidentais não permitem! Estrangulado, o Japão não terá como produzir. Em desespero, partem para a guerra com os EUA. E são combatidos com uma selvageria que chegou ao extremo de lançar em seu solo duas bombas atômicas, a arma mais mortífera já concebida, e que jamais foi usada contra nenhum outro povo! Irreparavelmente batido, totalmente destruído, o Japão jamais terá como reerguer-se...

E o que foi que aconteceu?

Hoje, apenas Tóquio mais suas três prefeituras vizinhas detém o terceiro PIB do mundo. Os soldados japoneses não invadiram os EUA, mas seus produtos invadiram. As indústrias americanas não sentiram o peso das bombas, mas sentem o peso da concorrência. E no entanto, foi feito com o Japão tudo aquilo que, conforme nos ensinaram, as potências imperialistas fazem para inibir o crescimento dos países periféricos. O Japão foi impedido, pela força, de adotar medidas protecionistas ou reserva de mercado. Ainda assim a indústria nasceu. O Japão foi impedido, pela força, de garantir para si a posse de recursos minerais. Eles os adquiriram pelo comércio. Por fim, o Japão foi militarmente ocupado, teve sua constituição outorgada pelos americanos, tal como fizeram com Cuba, e lá como no Japão, havia um humilhante artigo que explicitamente garantia aos americanos o direito de intervir no país para assegurar sua neutralidade. Melhor para os japoneses, que ficaram dispensados de gastos militares... Enfim, a conclusão é uma só: o Japão foi o único país que enfrentou com sucesso o "imperialismo" americano. E para cúmulo da ironia, os americanos ainda ajudaram-nos a se reerguer após a guerra. Isto tudo aconteceu porque os japoneses, ao contrário dos demais, tiveram a hombridade de reconhecer aqueles aspectos em que a cultura estrangeira era superior à sua própria, bem como a humildade de aprende-los. Eles não se fecharam em uma reação histérica de condenação ao "imperialismo" que viola a sua "soberania", como é de praxe em nosso nacionalismo de fancaria. Os japoneses são nacionalistas de fato. Por isso eles são grandes, e nós ainda patinamos na mediocridade.

Mas antes que comecem a afirmar que eu estou apoiando a guerra contra o Iraque, apresso-me a dize-lo, não apóio esta guerra, como não apóio guerra nenhuma. Só não posso é levar a sério este anti-americanismo histérico, que enxerga um novo Hitler onde só há um arrogante xerife caipira, que coloca o conservantismo do "Bible Belt" americano em pé de igualdade com o fanatismo dos fundamentalistas. E sobretudo, incomoda-me saber que estes pacifistas que desfilam pelas ruas do mundo a condenar a guerra contra o Iraque serão os mesmos que aplaudirão uma intervenção americana na amazônia...

 

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