O Sexo e a Morte  
  Li recentemente um bom artigo sobre o tema da morte, do jornalista Janer Cristaldo. Ele não se limita a reiterar a inevitabilidade da morte, mas vai além: a morte seria não apenas inevitável, mas também desejável para nós. O supremo horror seria, isto sim, a vida eterna em um mundo como o nosso... Há tempos eu tenho opinião idêntica, mas normalmente não falo muito do assunto. Até que surja uma oportunidade. Pois lá vai, digo e assino embaixo: tenho medo de muita coisa, mas da morte eu não consigo ter medo. Acho que uma coisa tão natural não deve ser assim tão horrível. O que me interessa mesmo é o que vem depois, mas as teses correntes não me satisfazem. A começar por esta bobagem de paraíso e inferno; desde criança estudando em colégio de jesuítas eu pensava, se o paraíso é daquele jeito que é pintado nas ilustrações sacras, então deve ser um tédio, algo assim como um parquinho de diversões em um domingo interminável. Os padres tentavam me explicar que o verdadeiro paraíso não poderia ser descrito em termos visuais e sensuais, mas seria, em suas palavras, um "estado de espírito". Só não explicavam como é possível se manter um estado de espírito depois de morto. Muito menos a incongruência: como é possível que, em um tempo de vida de finita duração, nos façamos merecedores de uma recompensa ou de um castigo de duração infinita? Pois que eu saiba, quem entra no paraíso ou no inferno, deles não sai mais.

Neste ponto, considero bem mais plausível a tese dos adeptos do espiritismo, na verdade herdada de religiões orientais: o estágio pós-morte não seria terminal, mas parte de um ciclo. Ficaremos algum tempo em um plano etéreo, na companhia de outros espíritos, até que obtenhamos uma vaga para reencarnação, e sejamos reintroduzidos no mundo material na forma de uma criança recém-nascida, a fim de ter uma nova vida, e na visão moralista dos espíritas, expiar pelos maus atos que perpetramos nas encarnações passadas, e desta forma evoluir espiritualmente - ao retornarmos ao plano etéreo, se formos bem sucedidos, estaremos em um plano superior, na companhia de espíritos mais evoluídos, e o ciclo encarnação - desencarnação se repetiria um número de vezes, talvez indefinidamente, mas sempre nos levando para cima, em direção à perfeição. Muito lógico isto. Mas falta explicar: quem criou o lote inicial de almas? Pois mesmo que todas as criaturas encarnadas na época atual tenham almas de segunda-mão, egressas de mil encarnações passadas, forçosamente houve um dia em que circularam por este mundo corpos em primeira locação, carregando uma alma estreante. Também não é explicada a matemática da reencarnação: se o espírito nunca morre, mas a oferta de crianças recém-nascidas é necessariamente limitada, então como funciona a seleção? Os espíritos entram em uma fila? O número de espíritos é fixo? Se é fixo, o que sucederá no dia em que houver mais seres viventes do que espíritos disponíveis? E se o número de espíritos cresce, à medida em que o tal fabricante de almas produz novos lotes, isto não causaria a fila da reencarnação ficar cada vez mais longa? A única possibilidade de equilíbrio, neste caso, seria: em uma extremidade, novos espíritos "calouros" são criados, e na outra extremidade, os espíritos "graduados" deixam de voltar à Terra. Mas se o espírito nunca morre, para onde irão as levas de espíritos que já passaram por todos os estágios? Recomeçar o ciclo em outro mundo material, quiçá outro planeta onde viva uma humanidade mais evoluída? A idéia não é má, mas apenas desloca para o futuro a questão irrespondível: e depois? Não tem jeito, recaímos na idéia judaico-cristã de paraíso. Uma vida eterna - seja no plano material ou espiritual - é sempre um tédio.

Passando a palavra dos esotéricos para os cientistas, temos que reconhecer uma coisa: a morte foi uma genial invenção da evolução biológica. Tão genial e revolucionária quanto a invenção do sexo, que aliás surgiu concomitantemente. Tese bizarra? Eu explico. Até 1 bilhão de anos atrás, só existia vida na Terra na forma de organismos unicelulares, o que vale dizer, não existia sexo nem morte, pois um organismo unicelular se reproduz sem necessidade de uma cópula, apenas dividindo-se em dois, e ao fazê-lo, ele "morre" como indivíduo, e as duas células em que se dividiu constituem sua descendência. Parece prático, mas atravanca a evolução, que, como se sabe, depende da rápida transmissão aos descendentes das mutações "boas", assim consideradas por significarem adaptações evolutivas. É do interesse da espécie, portanto, que a linhagem dos portadores das adaptações evolutivas prospere o quanto antes. Mas como cada célula dá origem uma linhagem única e específica, cada uma delas é como uma gota no oceano. Até que os portadores das mutações "boas" se tornem majoritários, decorrerá um tempo imenso.

Foi então que alguém - ou alguma coisa - inventou o sexo e a morte. Agora, para haver reprodução, não basta que cada organismo faça cópias de si mesmo, ad infinitum. É necessário haver, não uma cópia, mas uma combinação, e é justamente isto o que oferece a reprodução sexuada. A cada cópula bem-sucedida, embaralham-se novamente os genes, produzindo uma variedade de resultados. Tal como no pôquer, teremos jogos bons e maus. Um único exemplar masculino, oriundo de um jogo "bom", pode transmitir suas boas cartas a uma variedade de fêmeas, dando origem, não a uma única, mas a várias linhagens. E depois? Bom, aí que entra a morte. É do interesse da espécie que as gerações novas, por serem portadoras das adaptações evolutivas, tornem-se majoritárias o quanto antes. Mas se os exemplares das gerações antigas, ainda mal adaptadas, tiverem um tempo de vida demasiado longo, eles passarão a fazer concorrência aos jovens, retardando-os em seu percurso. É necessário que os velhos desapareçam - e é para isto que há a morte. Seu tempo de vida é parte de sua programação genética, e quanto mais curto, mais rapidamente as adaptações evolutivas se propagarão. Pode-se argumentar: mas o mesmo que foi dito para os portadores das cartas "boas" vale para os portadores das cartas "más", pois também eles fecundarão diversas fêmeas e darão origem a numerosas linhagens degeneradas. Sim, mas justamente por constituírem desvantagens, os exemplares destas linhagens terão grande chance de morrer antes de atingir idade fértil - afinal, é para isto que existe a morte.

No primeiro bilhão de anos da vida na Terra, a evolução atingiu, no máximo, o nível de organismos unicelulares. No segundo bilhão, graças à fabulosa invenção do sexo e da morte, temos esta espantosa variedade de seres vivos em nosso planetinha. É ou não de se tirar o chapéu? Baseado em fatos assim, não consigo achar que a morte seja uma coisa necessariamente ruim. Não que eu esteja ansioso para partir deste mundo - ainda não estou nem um pouco cansado da vida - mas tampouco vejo com agrado a possibilidade de viver 100 anos. A menos que eu possa atingir esta idade no uso de minhas faculdades intelectuais, e ainda capaz de produzir alguma coisa que não seja sujeira na fralda geriátrica. Queria ser como a cineasta Leni Riefenstahl, que produziu filmes aos 99 anos de idade, ou como a rainha-mãe da Inglaterra, já passada dos 100 e presente aos cerimoniais, ou como o arquiteto Oscar Niemeyer, que ainda faz projetos aos 97, e que ninguém o julgue caduco por se declarar ainda confiante no comunismo, pois ele sempre teve aquela cabeça. Mas estou ciente de que prodígio assim é privilégio de uns raros indivíduos dotados de extraordinária compleição física. Modestamente, prefiro uma velhice sossegada e uma boa morte, sem incomodar ninguém.

Mas como sonhar não paga imposto, eu às vezes tenho a impressão de que seguirei o exemplo de Elsie Dubugras. Esta senhora trabalhou a vida inteira e esperou a aposentadoria a fim de ter o tempo necessário para se dedicar às atividades de que realmente gostava. Como viajava muito em seu trabalho, aproveitou para coletar amplo material para suas pesquisas, e iniciou sua carreira de jornalista... aos 70 anos de idade. Na época, sua disposição espantava aos jovens colegas na redação da revista Planeta. Hoje, chegando aos 100, ela ainda está na ativa. E certamente muito feliz...

 

 

  Início

adidas superstar adidas stan smith adidas stan smith zwart adidas superstar dames adidas yeezy adidas yeezy boost 350 adidas superstar canada adidas nmd adidas superstar adidas nmd canada adidas stan smith adidas superstar adidas stan smith dam adidas superstar dam